Vícios de um músico

Quais são os vícios que atrapalham o músico a avançar no estudo musical? Estudar pode não adiantar ou até ser contraproducente. Confira formas de identificá-los para eliminá-los, levando sua música sempre em frente e nunca para trás.

Vícios de um músico

Professor escuta muito isso de novos alunos que já tocam: "Ah, eu sou cheio de vícios". Mas o que é vício na música? Neste artigo vou relatar alguns que já vi e li sobre.

É muito comum não termos uma cultura da prática do estudo. A escola, muitas vezes, não ensina como estudar. Ela ensina a matéria, escreve no quadro, a gente copia, leva pra casa "para estudar". Mas e como é que estuda? De forma que cada um estuda de um jeito, e aí a gente acaba por criar certos hábitos de estudo que, não sendo eficientes, podem não trazer efeito ou até ser contraproducente.

A aula de instrumento pode ter o mesmo fim. Veja alguns maus hábitos de estudo que nós adquirimos:

1- Voltar ao início da peça. Você começa a aprender uma música. Vai bem até certo ponto, em que você erra. Aí você volta lá de cima e começa tudo novamente, na esperança que "agora vai", errando no mesmo lugar de sempre.

Problema: Você fica craque no início da música, mas só no início... Nunca treina o trecho com problemas de forma direta.

Resultado: Acaba desistindo da peça e, por fim, do instrumento.

Solução: Isolar a parte errada, verificar as notas (muitas vezes é apenas uma) que estão dando problema, treinar mãos separadas, depois juntas, e ir 'costurando' o trecho no restante da música. Podemos também começar o treino pelas partes mais difíceis.

2- Gagueira. Aquelas partes que a gente erra e fica repetindo várias vezes, pra corrigir o erro.

Problema: Desarruma o seu ritmo interno, porque isso faz você sair do tempo.

Resultado: Cria medo de tocar em público. Não consegue tocar com outros músicos.

Solução: Não pare, continue tocando. Depois quando parar, volte e veja o que aconteceu.

3- Treinar apenas no piano. Muitos alunos fazem uma aula por semana e não tocam nada entre as aulas. Assim é praticamente impossível aprender. Alguns alunos treinam entre as aulas, mas não usam a 'cabeça' pra treinar.

Problema: Não há envolvimento com a aprendizagem do instrumento, porque o estudo fica confinado ao tempo sentando 'tocando' o instrumento, que pode ser muito pouco.

Resultado: Evolução lenta.

Solução: É possível treinar seu instrumento, usando a mente e a imaginação para visualizar e até mesmo treinar os movimentos musicais e corporais. Esportistas em geral treinam assim. Depois do seu treino no instrumento, é possível ficar imaginando o que você tocou no treino por vários minutos e até horas. Meu professor me dizia: Faça o seu treino 30% no instrumento e 70% mentalmente. E de fato, foi uma habilidade que adquiri e me ajuda tremendamente tanto no meu treino no instrumento, quanto para tirar músicas de ouvido, chegando a situações que nem precisamos de instrumento para isso.

4- Começar a aprender uma peça sem musicalidade e expressão. É muito comum o aluno iniciante tocar música que não parece música. É incrível como um músico maduro consegue tocar um acompanhamento mais simples com tanta beleza que a peça musical até parece ser avançada.

Problema: Nunca tocar 'bonito', tocar forte ou fraco demais, lento ou rápido demais, com som sujo, com gagueira, etc...  

Resultado: Sentir pressa em avançar para outro repertório, querer tocar músicas 'bonitas' ou avançadas, na esperança que aí sim, tocaremos bonito.

Solução: Saber que a beleza não está apenas na composição, mas na execução. Começar a tocar as músicas, mesmo que muito lentamente, já aplicando as marcas de expressão (fraco-forte, articulações, etc) respeitando as pausas, treinando mãos separadas os trechos de dificuldade. Quando treinamos mãos separadas, podemos isolar um trecho ou um acorde e tocá-lo várias vezes, mas com o dedilhado correto e com beleza. Assim, você já pratica o movimento e expressão corretos. Ao juntar as mãos, tocaremos lentamente para coordenar bem as mãos e não tocar errado nunca. Em algumas culturas e escolas, como as orientais, treina-se de forma que nunca toca-se uma nota errada, desde o início da peça, já com beleza e expressão. Esta é a forma mais eficiente e rápida de atacar um repertório.

5- Usar movimento lento pra tocar peças rápidas.

Problema: tocar rápido é sempre muito difícil.

Resultado: O movimento é sempre amarrado, custoso. Por não conseguir tocar rápido, o movimento acaba ficando forçado, levando a dores e até lesões.

Solução: Se as peças são rápidas, é importante usar o movimento correto referente à música desde o início. Chang C. Chuan, em seu livro, "Fundamentals of Piano Practice" discute sobre esta questão fazendo alusão ao movimento do cavalo. Este animal magnífico faz uso de diferentes marchas para locomover-se. Imagine que ele começa a andar e você quer que ele vá mais rápido. Ele acelera o movimento atual, ou inicia outro diferente? Se ele acelerar o movimento atual, ele alcança um ponto em que ele não consegue ir mais rápido, e ele fica forçado a mudar a marcha. No andamento humano é a mesma coisa! A gente começa a caminhar e acelera até mudar a dinâmica da biomecânica, começando a correr, que é outro tipo de movimento. Acontece mais ou menos a mesma coisa com as peças. Se o movimento é veloz, não adianta ficar treinando com lentidão, acreditando que isso o levará a tocar rápido futuramente. É preciso treinar de cara o movimento veloz.

6- Treinar com metrônomo demais ou de menos. 

Problema: Dependência (treinar demais) ou falta de ritmo (treinar de menos).

Resultado: Treinar com metrônomo demais pode destruir seu relógio interno por conta de um truque que sua mente prega em você: Se conseguir tocar muito perfeitamente no tempo, a batida do seu instrumento vai coincidir com o clique o metrônomo e cancelar a onda sonora gerada por ele. Aí a sua mente começa a sentir falta do clique e você acaba tocando fora do tempo de forma inconsciente, ou seja, você chegou ao ápice da perfeição temporal, que agora será destruída por conta de um efeito psicoacústico caótico. Ao mesmo tempo, sem um músico nunca treina com metrônomo e toca sempre muito à vontade, ele fica impossibilitado de tocar com outras pessoas.

Solução: Quem treina demais com metrônomo, pode acreditar que o tempo musical não é flexível. Explico: Em uma performance musical artística humana (não roboticamente quantizada) o tempo pode acelerar ou atrasar. Uma boa banda, quando é bastante precisa, termina uma música até 10% mais lenta ou mais rápida em relação ao andamento inicial. Eu já medi o andamento de uma peça solo inteira tocada pela pianista Judy Carmichael, considerada a rainha do Stride (quem eu tive a enorme honra de conhecer pessoalmente aqui no Brasil) e pude notar as variações de andamento de chegavam a subir 20% de variação e descer bruscamente 35%. Isso porque o músico pode ir controlando seu ímpeto ao perceber que está acelerando e pode 'puxar' um pouco se percebe que está caindo. Temos este direito. Há ainda alternativas para o treino com metrônomo, que seria uma bateria eletrônica, que adiciona outros ritmos e timbres percussivos à pulsação, evitando que a única referência (clique) seja cancelada. Quem não treina com metrônomo porque não gosta, na verdade, é porque não consegue "ouvi-lo" quando toca seu instrumento, tem que entender que somos capazes de 'desligar' certos estímulos sensoriais. É como quando vocês está escrevendo uma mensagem em seu celular e tem alguém tentando falar algo com você. Você estava ali recebendo o estímulo sensorial, mas sua mente simplesmente não o registrou. Na verdade, este é um mecanismo de defesa do nosso corpo, filtrar os estímulos, contra uma sobrecarga de recepções nervosas sensoriais. Basta querer colocar o som do metrônomo em sua consciência e tocar o tempo todo, ouvindo o metrônomo. Só isso!  

7- Usar o pedal de sustain demasiadamente. Alguns alunos começam a aprender peças e tocar acompanhamentos com o pé atolado no pedal de sustain do piano.

Problema: Muitas peças não possuem pedal de sustain. As peças que usam pedal e os acompanhamentos, por mais bonitos e bem elaborados que sejam, tem uso muito específico e há uma forma sempre adequada de usá-lo. Muitos não usam o pedal, ou usam de forma errada, porque não entendem a mecânica dele, como funciona e para que serve.

Resultado: Pianistas excelentes, que tem conhecimento musical fantástico com um piano sujo e 'barulhento'.

Solução: O pedal serve para ligar os sons, principalmente os acordes. Usamos o pedal na transição de um acorde para outro. Não usamos quando tocamos linearmente, principalmente em improvisações jazzísticas ou peças com muitas escalas. Aqui na Oficina do Músico, temos um Curso de Pedal de Sustain (aproveite a promoção) para você aprender a usá-lo como um pianista profissional. O bacana é que um pedal bem usado pode elevar muito o nível da sua performance e expressão musical.

Em suma, um músico com bons hábitos de estudo, não precisa passar horas e horas treinando em seu instrumento. Se alguém me diz que treina oito horas por dia, começo a pensar se realmente é treino, ou é apenas um tocar sem objetivo algum, que não é ruim, no final das contas, mas não haverá muito crescimento musical.

Para terminar, gostaria de citar o André Mehmari, grande músico brasileiro, que em uma entrevista respondeu o seguinte à pergunta "Quantas horas você estuda por dia": "Todas".

 

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Gaspar Souza

Gaspar Souza

Concordo plenamente parabéns. Forte abraço.
★★★★★DIA 06.10.17 22h24RESPONDER
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Diego Alex

Diego Alex

Gaspar, grande abraço. Parabéns pela iniciativa e esperamos que este curso te ajude a alcançar seus objetivos.

★★★★★DIA 10.10.17 15h44RESPONDER
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Diego Alex Sandro Silva

Diego Alex Sandro Silva

Excelente artigo, como sempre o prof. César Braga demonstrando grande conhecimento.
Vale a pena conferir.
★★★★★DIA 26.09.17 14h53RESPONDER
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